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E se a fé precisar sobreviver sem resposta?
Há um homem sentado na calçada da Rua Antônio Maria, em Cuiabá. Ele não pede esmola. Não chora. Não reza. A poucos metros, uma igreja de portas abertas canta que Deus é amor. Lá fora, nenhum anjo desce.
Deus de Salomão: Teodiceia Viva é um ensaio teológico-literário que mistura reflexão bíblica, crítica social e narrativa urbana. A pergunta que o conduz é antiga e atual: a fé pode sobreviver à ausência de Deus?
O termo "teodiceia" foi criado por Leibniz para designar a tentativa de justificar Deus diante do mal. As teodiceias clássicas respondem com livre-arbítrio, prova, plano maior ou mistério. Este livro faz outra coisa. É uma teodiceia viva: não procura justificar Deus com argumentos, mas viver a pergunta na pele da rua. Ela não explica o sofrimento, ela o enfrenta. Não defende Deus, age onde Deus parece ausente. Não pergunta "por quê?", pergunta "o que eu faço enquanto isso?".
Como companheiro de caminhada, o autor escolhe Salomão, o rei que pediu sabedoria a Deus e, no fim da vida, escreveu que tudo era vaidade. Salomão é ao mesmo tempo espelho e advertência: sabia o que era certo e fez o errado, como tantos de nós. Ao lado dele, passam por estas páginas Habacuque, Jó, o Salmo 88, o grito de Jesus na cruz, Isaías, Paulo e Miquéias.
Ao longo de um prólogo, oito capítulos e um epílogo, o leitor encontra:
• o grito que atravessa os séculos, do profeta Habacuque à esquina de hoje, onde a violência deixou de ser apenas visível e passou a ser previsível;
• as respostas teológicas clássicas (livre-arbítrio, sofrimento como prova, plano maior, Deus sofredor, silêncio) postas à prova diante da fome, da violência doméstica, do tráfico, das drogas e da desigualdade;
• a pergunta incômoda de um Deus que se esconde por amor, quando uma criança precisa escolher entre um traficante que lhe dá comida e um Deus que se cala;
• a hipótese de um Deus que talvez não possa fazer tudo, e o cuidado limitado em que algo do divino resiste;
• a tese de que o maior sinal da ausência de Deus pode não ser a dor, mas a nossa capacidade de conviver com ela;
• o retrato de Salomão, o sábio que falhou, e das vaidades modernas: o álcool, as drogas, a violência, o feminicídio, a pobreza forçada, a corrupção;
• a história de quem desceu no lugar de Deus: a mulher que distribui sopa, o enfermeiro que segura a mão, o homem que fundou um centro de recuperação sem ser pastor;
• um caminho prático e estrutural, em que caridade resolve o hoje e estrutura muda o amanhã.
Sem fórmulas fáceis e sem pregação, o livro propõe uma aposta: a de que o pão partilhado vale mais que o milagre que não vem, e de que, mesmo quando Deus se cala, nossas mãos podem responder. Porque se Deus não aparece, isso não nos absolve. Nos expõe.
Para quem já duvidou, já orou e só ouviu o teto, para quem trabalha com pessoas em situação de rua, dependência e vulnerabilidade, para pastores, voluntários, estudantes de teologia e leitores que buscam uma fé honesta, sem maquiagem, este é um livro para ler devagar e levar para a rua.
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