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Uma vez por mês, sempre numa terça, ela aluga o mesmo quarto de hotel. Chega sozinha, com uma mala pequena. Não desce para jantar.
O hotel inteiro decidiu, há muito, que ela tem um amante - porque é a única história que um hotel sabe contar sobre uma mulher casada que aluga um quarto uma noite por mês.
Não há amante nenhum. Nunca houve.
Clara tem quarenta e sete anos, três filhos, uma mãe de oitenta e dois que liga a qualquer hora, um marido bom - e um corpo que há vinte anos deixou de lhe pertencer. Um corpo que carrega, cozinha, atende, resolve. Um corpo que, quando o marido o toca à noite, já não sente: calcula. Quanto tempo aquilo vai demorar. Se ainda precisa pôr a máquina. A que horas tem de acordar.
Ela não sobe ao Quarto 314 para encontrar um homem. Sobe para reaprender a habitar o único corpo que tem.
Durante um ano, Sophia - a tradutora de tudo o que duas pessoas sentem e não conseguem dizer - acompanhou a mulher do Quarto 314. E chegou à verdade que nenhum manual de sedução ensina: não se reacende o desejo de quem já não está lá.
Marca-se a noite, monta-se o ritual, compra-se o vinho - e não acontece nada. Não falta técnica. Falta alguém dentro do corpo. Porque antes de querer alguém, é preciso haver alguém que quer.
Para as mulheres que se entregaram aos pedaços, sempre por boas razões, sempre aplaudidas - até já não saberem que cara têm em repouso.
Porque o incêndio ilumina uma noite e deixa cinzas. A lareira, cuidada, aquece uma vida inteira.
Da autora de A Mulher que Nunca Flertava e O Perfume da Quinta-Feira.
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